O que é refluxo gastroesofágico?
O refluxo gastroesofágico ocorre quando o esfíncter esofágico inferior (a válvula entre o esôfago e o estômago) falha em permanecer fechado, permitindo que o ácido gástrico e enzimas digestivas reflúam para o esôfago. A mucosa esofágica, diferentemente da gástrica, não está preparada para suportar o pH ácido, sendo rapidamente lesionada — condição chamada de esofagite por refluxo.
Em medicina veterinária, uma das causas mais importantes de refluxo é a anestesia geral, que relaxa o esfíncter esofágico inferior e coloca o animal em posição horizontal por período prolongado. Por isso, o jejum pré-operatório adequado é essencial para reduzir o volume gástrico disponível para refluxo durante os procedimentos cirúrgicos.
Causas e tipos
As causas são variadas e podem ser divididas em agudas e crônicas. A forma aguda mais comum é o refluxo peri-anestésico. A forma crônica está associada a deformidades anatômicas como hérnia hiatal, disfunção do esfíncter esofágico inferior, gastroparesia (esvaziamento gástrico lento) e uso prolongado de certos medicamentos como corticosteroides e anti-inflamatórios.
- Refluxo peri-anestésico: durante ou após procedimentos sob anestesia
- Hérnia hiatal: parte do estômago hernia pelo diafragma para o tórax
- Gastroparesia: esvaziamento gástrico retardado com acúmulo de conteúdo
- Iatrogênico: induzido por medicamentos que relaxam o esfíncter
Sintomas
Os sinais de esofagite por refluxo incluem regurgitação (expulsão passiva de alimento sem esforço, diferente do vômito), salivação excessiva, dificuldade ou dor ao engolir (disfagia), recusa de alimentação, perda de peso e, às vezes, eructações frequentes. O animal pode apresentar desconforto após as refeições, curvando o pescoço para baixo ou lambendo os lábios repetidamente.
Nos casos graves, a esofagite evolui para úlceras e fibrose com formação de estenose — estreitamento cicatricial do esôfago. A estenose esofágica causa regurgitação progressivamente pior, com incapacidade de engolir alimentos sólidos, e exige dilatação endoscópica periódica.
Diagnóstico
O diagnóstico é baseado no histórico clínico (especialmente cirurgias recentes) e nos sinais de disfagia e regurgitação. A endoscopia digestiva alta é o exame de escolha, permitindo visualização direta da mucosa esofágica, graduação da esofagite e coleta de biópsias. A radiografia contrastada (esofagograma) e a fluoroscopia avaliam a motilidade e identificam hérnias hiatais.
É fundamental diferenciar regurgitação (esofágica) de vômito (gástrico), pois o manejo é completamente diferente. Na regurgitação, o conteúdo sai passivamente, sem contrações abdominais, geralmente logo após a ingestão.
Tratamento
O tratamento inclui modificação da dieta (refeições pequenas e frequentes, alimento úmido ou papas), elevação do comedouro e uso de medicamentos que reduzem a acidez gástrica (inibidores de bomba de prótons como omeprazol) e que aumentam a motilidade esofagogástrica (procinéticos como metoclopramida ou cisaprida). Nos casos graves com ulceração, sucralfato cria barreira protetora na mucosa lesionada.
A estenose esofágica estabelecida requer dilatação endoscópica por balão, geralmente repetida em intervalos de semanas até a manutenção do calibre adequado. Hérnias hiatais sintomáticas podem necessitar de correção cirúrgica.
Prevenção
O jejum pré-operatório correto é a principal medida preventiva do refluxo anestésico. Em animais com histórico de refluxo, o anestesista pode administrar profilaticamente inibidores de bomba de prótons antes da indução. Manter o peso ideal e evitar refeições volumosas seguidas de atividade física intensa também reduz o risco de refluxo crônico.