O que é ceratite?
A córnea é uma estrutura avascular e transparente formada por várias camadas de células epiteliais, estroma e endotélio. Essa transparência é fundamental para a visão. Quando inflamada, a córnea perde sua transparência pelo edema e infiltração celular, tornando-se opaca. A ceratite pode ser superficial (afetando apenas o epitélio) ou profunda (comprometendo o estroma), sendo esta última de maior gravidade.
Em raças braquicefálicas como Pug, Shih Tzu e Bulldog, a ceratite pigmentar é um problema crônico: a córnea progressivamente escurece pela deposição de melanina em resposta à irritação crônica, comprometendo a visão. O tratamento precoce das causas de irritação é a única forma de retardar esse processo.
Causas e tipos
O trauma é a causa mais comum de ceratite aguda: arranhões com galhos, arranhões de outros animais, corpos estranhos e fricção das pálpebras contra a córnea. A ceratoconjuntivite seca (olho seco) causa ceratite por exposição e atrito contínuos. Em gatos, o herpesvírus felino é a principal causa infecciosa de ceratite, produzindo as características úlceras dendríticas.
- Traumática: arranhão, corpo estranho, contusão
- Por ceratoconjuntivite seca: ausência de lágrima lubrificante
- Viral: herpesvírus felino tipo 1 em gatos
- Bacteriana: secundária a úlceras infectadas
- Por exposição: lagoftalmia em braquicefálicos
- Pigmentar: depósito de melanina por irritação crônica
- Imunomediada: pannus (ceratite superficial vascular crônica) em Pastores Alemães
Sintomas
O sinal mais marcante é o blefarospasmo — o animal mantém o olho parcialmente ou totalmente fechado em resposta à dor e fotofobia. Lacrimejamento intenso, vermelhidão conjuntival e opacidade da córnea — que pode aparecer como uma mancha branca, azulada ou acinzentada — completam o quadro. O animal frequentemente esfrega o olho com a pata ou em superfícies, podendo agravar a lesão.
Úlceras corneanas profundas ou infectadas (úlceras melting) evoluem rapidamente e representam emergência: a córnea pode perfurar em 24 a 48 horas. Sinais de gravidade incluem secreção purulenta intensa, irregularidade da superfície corneana visível e alteração da pupila.
Diagnóstico
O teste de fluoresceína é o exame mais importante: o corante fluorescente adere ao estroma exposto nas úlceras e fluorece sob luz azul, revelando a extensão e profundidade da lesão epitelial. O teste de Schirmer quantifica a produção lacrimal, essencial para identificar ceratoconjuntivite seca associada. A biomicroscopia com lâmpada de fenda caracteriza a profundidade e o tipo da ceratite.
A cultura e o antibiograma de úlceras infectadas identificam o agente bacteriano. Em gatos com ceratite recorrente, o PCR para herpesvírus em swab corneano confirma a etiologia viral. A tonometria avalia a pressão intraocular, pois uveíte associada pode causar hipotensão.
Tratamento
Úlceras superficiais simples cicatrizam em 5 a 7 dias com colírios antibióticos, analgésicos sistêmicos e proteção com colar elizabetano. Úlceras infectadas ou profundas requerem antibiótico tópico de alta frequência (a cada 1 a 2 horas inicialmente), desbridamento mecânico e, em casos graves, retalhos conjuntivais ou ceratectomia superficial.
A ceratoconjuntivite seca é tratada com colírios de ciclosporina ou tacrolimus e lágrimas artificiais frequentes. A ceratite herpética felina responde a antivirais tópicos e L-lisina oral. O pannus do Pastor Alemão é manejado com corticoides tópicos crônicos e, em casos avançados, ciclosporina. A ceratite pigmentar em braquicefálicos requer correção das causas anatômicas predisponentes.
Prevenção
Proteger o animal de ambientes com vegetação densa que possa lesionar os olhos, manter a produção lacrimal monitorada em raças predispostas, realizar avaliações oftalmológicas periódicas em braquicefálicos e Pastores Alemães, vacinar gatos contra herpesvírus e intervir cirurgicamente precocemente em entrópio e triquíase são as principais medidas preventivas da ceratite.