O que é shunt portossistêmico?
Normalmente, o sangue que vem do intestino e do baço passa pelo fígado antes de entrar na circulação geral. Essa passagem é essencial: o fígado remove toxinas, metaboliza nutrientes e produz proteínas. No shunt portossistêmico, uma comunicação vascular anormal desvia esse sangue diretamente para a veia cava ou outra veia sistêmica, "pulando" o fígado.
O resultado são dois problemas principais: o fígado não recebe sangue suficiente e fica pequeno e subdesenvolvido (microhepatia); e substâncias tóxicas — principalmente amônia produzida pela digestão de proteínas — acumulam-se na circulação, causando danos ao sistema nervoso central (encefalopatia hepática).
Raças predispostas e tipos
O SPS congênito afeta predominantemente raças pequenas. Yorkshire Terrier é a raça mais acometida, seguida por Maltês, Lhasa Apso, Poodle miniatura e Bichon Frisé. Em raças grandes, o shunt intrahepático (dentro do fígado) é mais frequente. Em gatos, a condição é menos comum mas ocorre.
- Extrahepático: comunicação fora do fígado, mais comum em raças pequenas
- Intrahepático: dentro do parênquima hepático, mais comum em raças grandes
- Adquirido: múltiplos shunts secundários a cirrose ou hipertensão portal crônica
Sintomas
Os sintomas aparecem geralmente antes de 1 ano em filhotes com SPS congênito. Crescimento retardado, baixo peso, comportamento anormal após as refeições (desorientação, caminhar em círculos, pressão da cabeça contra paredes, convulsões), salivação excessiva, vômito, poliúria e polidipsia, e urolítiase por cristais de urato de amônio são os sinais mais característicos.
Os sinais neurológicos (encefalopatia hepática) são exacerbados após refeições proteicas, pois a digestão de proteínas aumenta a produção de amônia.
Diagnóstico
A ultrassonografia abdominal com Doppler identifica o vaso anômalo na maioria dos casos. Dosagem de ácidos biliares pré e pós-prandial é o teste de função hepática mais sensível para rastreamento do SPS. A amônia plasmática está elevada. A tomografia angiográfica confirma a localização exata do shunt para planejamento cirúrgico.
Hemograma e bioquímica mostram microhepatia (VGM baixo), hipoalbuminemia, hipoglicemia e alterações nos testes hepáticos. Urina revela cristais de biurato de amônio.
Tratamento
O tratamento cirúrgico com atenuação gradual do shunt é o de eleição e proporciona resultados excelentes. O ameróide constrictor ou a banda de celofane são colocados ao redor do vaso anômalo, ocluindo-o gradualmente ao longo de semanas e permitindo adaptação da circulação hepática. Taxas de sucesso superiores a 85% são descritas em centros especializados.
O tratamento clínico pré-cirúrgico e nos casos não cirúrgicos inclui dieta com proteína de alta digestibilidade e baixo nível, lactulose para reduzir a produção intestinal de amônia e antibióticos como metronidazol ou neomicina para reduzir bactérias produtoras de amônia.
Prognóstico
Com cirurgia precoce e bem-sucedida, a maioria dos cães tem vida normal. Casos tratados apenas clinicamente têm qualidade de vida limitada e sobrevida reduzida. O diagnóstico e encaminhamento precoce para cirurgia especializada são fundamentais para o melhor prognóstico.