O que é quilomicronemia?
Quilomícrons são lipoproteínas produzidas pelos enterócitos (células intestinais) para transportar triglicerídeos e colesterol absorvidos na dieta para a circulação. Normalmente, são rapidamente removidos da circulação pelo fígado e tecido adiposo. Na quilomicronemia, esse clearance é insuficiente, levando ao acúmulo de quilomícrons no plasma.
O sinal laboratorial mais marcante é o aspecto lactescente (leitoso) do plasma — o soro após centrifugação tem cor branca cremosa em vez da cor amarelo-âmbar normal. Triglicerídeos plasmáticos muito elevados (acima de 1000 mg/dL) confirmam a condição.
Causas
A quilomicronemia pode ser primária (genética, com deficiência da lipoproteína lipase) ou secundária a doenças sistêmicas que causam hiperlipidemia. Em gatos, a forma primária com xantomas e neuropatia periférica é relativamente descrita. Em cães, causas secundárias são mais comuns.
- Primária: deficiência hereditária da lipoproteína lipase (gatos)
- Hipotireoidismo: reduz o catabolismo de lipoproteínas
- Diabetes mellitus: aumenta a produção hepática de VLDL
- Hiperadrenocorticismo: hiperlipidemia por resistência insulínica
- Pancreatite crônica: interfere no metabolismo lipídico
- Dieta hiperlipídica pós-prandial: causa fisiológica transitória
Sintomas
A quilomicronemia pode ser assintomática quando leve. Em casos graves, a pancreatite aguda — desencadeada pelos triglicerídeos elevados que lesionam o pâncreas — é a complicação mais séria, causando dor abdominal aguda, vômito e anorexia. Lipemia retinal causa aspecto esbranquiçado dos vasos da retina, visível ao exame oftalmoscópico.
Em gatos com forma primária, xantomas (nódulos amarelados de lipídeos) aparecem na pele, junções cutâneas e nervos periféricos. A neuropatia periférica causa fraqueza muscular e dificuldades de locomoção.
Diagnóstico
O diagnóstico laboratorial é simples: plasma visivelmente lipêmico e triglicerídeos muito elevados (acima de 500 a 1000 mg/dL). É fundamental realizar o exame em jejum de 12 horas para diferenciar de hiperlipidemia pós-prandial fisiológica. Colesterol também pode estar elevado.
A investigação da causa inclui dosagem de T4 (hipotireoidismo), glicemia e frutosamina (diabetes), cortisol pós-ACTH (hiperadrenocorticismo) e lipase pancreática (pancreatite). Ultrassonografia abdominal avalia o pâncreas e o fígado.
Tratamento
O tratamento da causa subjacente é o pilar. Hipotireoidismo responde à levotiroxina; diabetes ao controle glicêmico; hiperadrenocorticismo à trilostana ou mitotano. A dieta com ultra-baixo teor de gordura (menos de 10% de gordura na matéria seca) é fundamental em todos os casos e obrigatória na forma primária.
Em gatos com forma primária, a dieta rigorosa pode resolver os xantomas e a neuropatia em semanas a meses. Suplementação com vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K) pode ser necessária devido à má absorção. A resposta ao tratamento dietético é monitorada pela redução dos triglicerídeos plasmáticos.
Prevenção
Evitar dietas hiperlipídicas, realizar exames bioquímicos anuais em animais idosos e raças predispostas, e tratar precocemente doenças endócrinas que causam hiperlipidemia são as principais medidas preventivas. O jejum de 12 horas antes de coleta sanguínea é essencial para diagnóstico correto.