O que é miíase (bicheira)?
Miíase é a infestação de tecidos por larvas de dípteros (moscas). No Brasil, a principal espécie envolvida é a Cochliomyia hominivorax, mosca que deposita ovos exclusivamente em tecidos vivos de animais de sangue quente. Em 12 a 24 horas os ovos eclodem e as larvas penetram nos tecidos, secretando substâncias que favorecem a necrose e atraem mais moscas.
A bicheira é uma emergência veterinária comum em países tropicais. Afeta cães, gatos, bovinos, ovinos e outros animais, sendo mais frequente em animais de vida livre ou sem cuidados adequados. Feridas pós-operatórias, traumas cutâneos, otites e regiões perianais úmidas são os locais preferenciais de infestação.
Causas e tipos
A mosca C. hominivorax é atraída pelo odor de feridas, secreções e urina. Fêmeas grávidas depositam ovos nas bordas da ferida ou em mucosas. Fatores de risco incluem feridas abertas não tratadas, umidade persistente na pele, imobilidade do animal e ausência de controle de ectoparasitas.
- Miíase cutânea: a mais comum, em feridas, dobras de pele e regiões perianais
- Miíase cavitária: acomete ouvido, narinas, boca ou genitália
- Miíase traumática: secundária a mordidas, cirurgias ou acidentes
- Miíase furuncular: larvas que formam nódulos subcutâneos (menos comum em cães e gatos)
Sintomas
A lesão apresenta bordas irregulares e úmidas com larvas visíveis a olho nu — pequenos vermes brancos ou amarelados em movimento. A área tem odor fétido intenso, sangramento e tecido necrótico. O animal demonstra dor intensa, podendo lamber ou morder compulsivamente a região. Febre, prostração, anorexia e sinais de septicemia indicam comprometimento sistêmico.
Em infestações severas as larvas podem alcançar músculos, cartilagens e até ossos. Miíases cavitárias são especialmente perigosas: larvas no ouvido causam desorientação; nas narinas, dificuldade respiratória; na região anal, sangramento e tenesmo.
Diagnóstico
O diagnóstico é visual e imediato: a presença de larvas em movimento na ferida é inequívoca. O veterinário avalia a extensão da lesão, a profundidade da infestação e o estado sistêmico do animal. Hemograma e bioquímica sérica são solicitados quando há suspeita de septicemia ou comprometimento orgânico.
É fundamental contar e identificar as larvas removidas para verificar a completude do tratamento. Larvas mortas ou restos deixados na ferida podem causar reação inflamatória intensa e infecção secundária.
Tratamento
O tratamento consiste na remoção manual de todas as larvas com pinça, lavagem copiosa da ferida com solução salina, desbridamento do tecido necrótico e aplicação de larvicida tópico (organofosforados como doramectina tópica ou ivermectina). A sedação ou anestesia facilita o procedimento em feridas extensas ou locais dolorosos.
Antibioticoterapia sistêmica é indicada sempre que houver infecção secundária. Anti-inflamatórios controlam a dor e a resposta inflamatória. Curativos oclusivos protegem a ferida de novas posturas. Em casos graves com destruição extensa, cirurgia reconstrutiva pode ser necessária após o controle da infestação.
Prevenção
Inspecionar o animal diariamente, especialmente em clima quente e úmido, tratar feridas imediatamente, manter boa higiene perianal e auricular e aplicar repelentes autorizados para pets são medidas eficazes. Animais acamados ou com mobilidade reduzida exigem atenção redobrada. A consulta veterinária imediata ao primeiro sinal de larvas é fundamental para evitar complicações graves.