O que é urolitíase felina?
Urolitíase felina é a presença de concreções minerais (urólitos) no trato urinário dos gatos, afetando principalmente a bexiga (cistolitíase) e a uretra (uretrolitíase). A doença é parte do complexo FLUTD (Feline Lower Urinary Tract Disease / Doença do Trato Urinário Inferior dos Felinos), que engloba todas as condições que afetam bexiga e uretra felinas.
Os gatos produzem urina naturalmente mais concentrada que cães e humanos, o que os predispõe à supersaturação mineral. Somado ao sedentarismo típico de gatos de apartamento e ao consumo predominante de ração seca (que contribui para menor ingestão hídrica), cria-se um ambiente ideal para a precipitação de cristais e formação de cálculos.
Causas e tipos
O oxalato de cálcio é o tipo mais prevalente em gatos adultos e idosos (especialmente machos acima de 7 anos), e sua frequência aumentou com o uso de dietas comerciais acidificantes para prevenção de estruvita. A estruvita ainda predomina em gatos jovens (menos de 4 anos) e está associada à cistite idiopática felina. Tampões uretrais mucosos — mistura de proteínas, cristais e detritos celulares — são causa muito comum de obstrução uretral em gatos jovens.
- Oxalato de cálcio: gatos adultos e idosos; não dissolúvel com dieta
- Estruvita: gatos jovens; pode ser dissolvido com dieta específica
- Tampão uretral: gatos machos jovens com cistite idiopática
- Urato: incomum; associado a doença hepática ou desvio portossistêmico
- Cálculos mistos: composição heterogênea
Sintomas
Os sinais incluem hematúria (sangue na urina, que pode manchar a areia do banheiro de rosa ou vermelho), polaciúria (frequência aumentada de micção com pouca saída), disúria (posição de urinar prolongada sem eliminação de urina), lambedura excessiva da genitália e vocalização de dor. O gato pode urinar fora da caixa de areia em locais incomuns.
A obstrução uretral completa — emergência absoluta — manifesta-se por tentativas repetidas e infrutíferas de urinar, agitação, dor abdominal intensa, vômito, letargia progressiva e colapso. A bexiga palpável e distendida confirma o diagnóstico clínico. Sem desobstrução nas próximas horas, ocorre falência renal aguda, hipercalemia e parada cardíaca.
Diagnóstico
A urinálise completa com sedimento e pH é o primeiro exame, identificando cristalúria, hematúria e infecção bacteriana associada. A ultrassonografia abdominal visualiza cálculos na bexiga, espessamento de parede vesical e distensão da bexiga em casos de obstrução. A radiografia abdominal detecta cálculos radiopácos como oxalato e estruvita.
Em casos de obstrução, exames laboratoriais urgentes (ureia, creatinina, potássio, bicarbonato) avaliam o grau de azotemia e hipercalemia, que orientam o suporte intensivo necessário. A análise química do cálculo removido é fundamental para orientar a prevenção de recidivas com dieta específica.
Tratamento
A obstrução uretral requer desobstrução emergencial por cateterização uretral, fluidoterapia agressiva, correção da hipercalemia e suporte intensivo. Após estabilização, a causa da obstrução (cálculo, tampão, espasmo) é tratada. Cálculos de estruvita podem ser dissolvidos com dieta acidificante específica em 4 a 12 semanas. Oxalato de cálcio requer cistotomia para remoção cirúrgica.
Gatos com obstruções recorrentes podem ser candidatos à uretrostomia perineal — cirurgia que amplia permanentemente a uretra, reduzindo o risco de obstrução futura. Após o tratamento, a prevenção de recidivas com dieta terapêutica adequada ao tipo de cálculo, fontes de água corrente e ração úmida é fundamental.
Prevenção
Aumentar a ingestão hídrica é a medida mais eficaz: fontes de água corrente (bebedouros elétricos), ração úmida ou mistura de água na ração seca. Dietas terapêuticas prescritas pelo veterinário para o tipo de cálculo ao qual o gato é predisposto devem ser mantidas a longo prazo. Enriquecimento ambiental reduz o estresse, que contribui para a cistite idiopática e formação de tampões. Urinálise semestral em gatos adultos permite detecção precoce de cristalúria antes da formação de cálculos.