O que é uremia em animais?
Uremia (do latim urina no sangue) é a síndrome sistêmica causada pelo acúmulo de substâncias normalmente eliminadas pela urina — ureia, creatinina, ácido úrico, fósforo e diversas outras toxinas — quando os rins perdem a capacidade de filtrá-las adequadamente. Não se trata de uma doença em si, mas do resultado final da falência renal.
A síndrome urêmica pode ser a apresentação de insuficiência renal aguda (IRA) — reversível se tratada a tempo — ou o estágio terminal da insuficiência renal crônica (IRC). Em ambos os casos, o quadro clínico é grave e exige internação e cuidados intensivos para estabilização do paciente.
Causas e tipos
A uremia aguda resulta de eventos súbitos que comprometem a função renal: intoxicação por anticongelante (etilenoglicol), uvas e passas em cães, AINEs em dose excessiva, leptospirose, obstrução uretral prolongada, desidratação grave, choque ou trauma. A uremia crônica é o desfecho da IRC progressiva, comum em gatos idosos e cães de raças grandes.
- IRA pré-renal: desidratação grave, choque, hipotensão
- IRA renal: nefrotoxinas (anticongelante, uvas, AINEs), leptospirose, isquemia
- IRA pós-renal: obstrução uretral, ruptura de bexiga
- IRC terminal: doença renal crônica progressiva
Sintomas
Os sinais clínicos são múltiplos e sistêmicos. No trato gastrointestinal: vômito persistente, diarreia, anorexia, halitose urêmica (odor de amônia no hálito) e úlceras na boca e no estômago. No sistema nervoso: depressão, desorientação, convulsões e coma nos casos mais graves. No sistema cardiovascular: hipertensão arterial, arritmias e, em estágios avançados, pericardite urêmica.
O animal apresenta fraqueza intensa, relutância em se mover, mucosas pálidas ou amareladas (anemia urêmica ou icterícia), desidratação e, dependendo da causa, oligúria (pouca urina) ou poliúria (muita urina). O hálito com cheiro de urina é um sinal altamente característico de uremia.
Diagnóstico
O diagnóstico baseia-se em exames laboratoriais: dosagem de ureia e creatinina sérica muito elevadas, hiperfosfatemia, hipercalemia (potássio alto — causa de arritmias letais), acidose metabólica e anemia não regenerativa. O SDMA (dimetil-arginina simétrica) é um marcador mais precoce de disfunção renal que a creatinina.
A urinálise revela densidade urinária inapropriada (isostenúria), proteinúria e cilindrúria. A ultrassonografia renal avalia o tamanho, a arquitetura e a perfusão dos rins, diferenciando causas agudas (rins de tamanho normal ou aumentado) das crônicas (rins pequenos e irregulares). A pressão arterial sistêmica deve ser medida em todo paciente suspeito.
Tratamento
O tratamento da uremia aguda envolve internação, fluidoterapia intravenosa intensiva para restaurar a perfusão renal, controle das alterações eletrolíticas e acidose, antieméticos e protetores gástricos para controle dos sinais gastrointestinais, e tratamento específico da causa subjacente. Em casos selecionados, a diálise peritoneal pode ser necessária.
Na IRC terminal, o objetivo é manejo paliativo: dieta com restrição de fósforo e proteína, quelantes de fósforo, estimulantes do apetite, antieméticos e suporte de qualidade de vida. A hemodiálise é raramente disponível em medicina veterinária no Brasil. O prognóstico depende da causa, da gravidade e da resposta ao tratamento inicial.
Prevenção
Manter o animal hidratado, evitar nefrotoxinas conhecidas (anticongelante, uvas, passas, AINEs sem prescrição), vacinar contra leptospirose, tratar infecções urinárias prontamente e realizar exames anuais de sangue e urina em animais idosos são as principais medidas preventivas. A detecção precoce da IRC permite intervenção dietética antes que a uremia se instale.