O que é necrose avascular da cabeça femoral?
A necrose avascular da cabeça femoral (NACF), ou doença de Legg-Calvé-Perthes, é causada pela interrupção do fluxo sanguíneo para a cabeça do fêmur, estrutura que articula com o acetábulo para formar a articulação coxofemoral (quadril). Sem suprimento sanguíneo adequado, o osso sofre necrose isquêmica, tornando-se frágil e sujeito a colapso sob as forças de carga do peso corporal.
O processo evolutivo passa por necrose isquêmica inicial, seguida de microfraturas e colapso da cabeça femoral, posterior tentativa de regeneração óssea e, finalmente, remodelação com deformidade residual. Quanto maior o dano antes da intervenção, mais grave a artrite secundária que se desenvolve.
Causas e tipos
A etiologia não é completamente esclarecida. Acredita-se que haja predisposição genética para fragilidade vascular da cabeça femoral em raças pequenas. Fatores hormonais (excesso de estrógeno em animais jovens), microtraumatismos repetidos e tromboembolismo da vasculatura femoral são mecanismos hipotéticos. A condição é unilateral em 80 a 85% dos casos, embora ambos os quadris possam ser afetados.
- NACF unilateral: mais frequente, afeta um quadril
- NACF bilateral: ambos os quadris afetados, pior prognóstico funcional
- NACF com fratura patológica: colapso com fratura subcondral
- NACF com osteoartrite grave: doença avançada com alterações degenerativas acentuadas
Sintomas
O sinal mais precoce é claudicação gradualmente progressiva no membro posterior afetado, com início tipicamente entre 4 e 12 meses de idade. O animal demonstra dor à extensão e abduação do quadril, reluta em apoiar o membro e pode levantar-se com dificuldade. Com a evolução da doença surge atrofia da musculatura da coxa por desuso, crepitação articular e redução da amplitude de movimento do quadril.
Animais afetados bilateralmente apresentam marcha anormal em ambos os membros posteriores e grande dificuldade de locomoção, afetando seriamente a qualidade de vida. A dor crônica pode alterar o comportamento, tornando o animal menos ativo, mais irritável e relutante ao manuseio da região pélvica.
Diagnóstico
O diagnóstico é baseado no exame físico ortopédico com avaliação da amplitude de movimento e dor à manipulação do quadril, combinado com radiografia da pelve em projeção ventrodorsal. A radiografia mostra alterações progressivas: rarefação e irregularidade da cabeça femoral nas fases iniciais, colapso e achatamento com irregularidade articular nas fases avançadas.
A tomografia computadorizada fornece avaliação tridimensional mais detalhada da extensão da necrose e do colapso ósseo, auxiliando no planejamento cirúrgico. A comparação bilateral das imagens é sempre realizada, mesmo quando a claudicação é unilateral, para identificar envolvimento subclínico do lado contralateral.
Tratamento
O tratamento conservador com analgesia e restrição de exercício pode ser tentado em casos iniciais muito leves, mas a maioria dos casos requer intervenção cirúrgica. A excisão da cabeça e do colo femoral (FHO — femoral head and neck ostectomy) é o procedimento mais realizado, removendo a superfície óssea necrótica e permitindo a formação de uma pseudoartrose fibrosa funcional com excelente prognóstico em raças pequenas.
A fisioterapia no pós-operatório é fundamental para maximizar a recuperação muscular e restaurar a função do membro. A maioria dos cães de raças pequenas submetidos à FHO tem recuperação funcional excelente, com retorno às atividades normais em 2 a 3 meses. A prótese total de quadril é reservada para raças maiores ou casos com resultados insatisfatórios da FHO.
Prevenção
Por ter componente genético, o melhor controle é evitar a reprodução de animais afetados e de seus familiares próximos em raças predispostas. O diagnóstico precoce, antes do colapso grave da cabeça femoral, permite intervenção mais oportuna e reduz as sequelas articulares. Manter o peso ideal e evitar sobrecarga articular em filhotes de raças pequenas são cuidados gerais recomendados.