O que é lipidose hepática felina?
Lipidose hepática felina (LHF), também chamada de síndrome do fígado gordo, é uma condição em que ácidos graxos provenientes do tecido adiposo periférico se acumulam no fígado em quantidade que excede a capacidade do órgão de processá-los. O fígado fica infiltrado de gordura, tornando-se amarelado e com função comprometida.
Diferentemente de cães e humanos, os gatos são fisiologicamente sensíveis ao jejum prolongado. Mesmo 2 a 4 dias sem comer — especialmente em gatos obesos — podem desencadear a lipidose. Por isso, qualquer gato que pare de comer deve ser avaliado com urgência.
Causas e tipos
A lipidose é desencadeada pelo jejum, que mobiliza ácidos graxos do tecido adiposo em quantidades que sobrecarregam o fígado. Em gatos obesos, a mobilização é ainda mais intensa. As causas do jejum que precipitam a lipidose são variadas.
- Lipidose primária (idiopática): sem causa identificada, comum em gatos obesos submetidos a estresse ou mudança de ambiente
- Lipidose secundária à pancreatite: a inflamação pancreática causa náusea e anorexia
- Lipidose associada à DII (doença inflamatória intestinal): má absorção e náusea reduzem a ingestão alimentar
- Lipidose por diabetes ou outras endocrinopatias: distúrbios metabólicos favorecem a mobilização lipídica
Sintomas
Os sinais incluem anorexia progressiva (de dias a semanas), perda de peso rápida, letargia intensa, vômitos, ptialismo (salivação excessiva) e icterícia (amarelamento de pele, mucosas e esclera). O animal pode apresentar postura curvada, sinal de dor abdominal, e hepatomegalia palpável ao exame físico.
Em casos avançados, ocorre encefalopatia hepática, com sinais neurológicos como desorientação, cambaleio, convulsões e coma. Coagulopatias e hipoglicemia também podem se desenvolver. O quadro é potencialmente fatal sem intervenção rápida.
Diagnóstico
A suspeita clínica baseia-se no histórico de anorexia em gato obeso com icterícia. Exames laboratoriais revelam elevação acentuada de enzimas hepáticas (ALT, AST, FA), hiperbilirrubinemia, hipoalbuminemia e, frequentemente, hipokalemia. O hemograma pode mostrar anemia e leucocitose.
A ultrassonografia abdominal mostra fígado aumentado e hiperecogênico (aspecto de "fígado gorduroso"). A confirmação definitiva é feita por citologia aspirativa ou biópsia hepática, que evidencia hepatócitos repletos de vacúolos lipídicos. A pesquisa de doenças subjacentes é fundamental para o manejo correto.
Tratamento
O pilar do tratamento é o suporte nutricional agressivo por via enteral. Um tubo de alimentação (nasogástrico, esofágico ou de gastrostomia) é colocado para garantir o aporte calórico necessário à recuperação hepática. Fluidoterapia com suplementação de potássio, vitaminas do complexo B e L-carnitina são associadas.
O tratamento dura de semanas a meses. Com suporte nutricional adequado, a taxa de recuperação pode superar 80%. Doenças subjacentes devem ser tratadas simultaneamente. A alta hospitalar não significa fim do tratamento: o tutor frequentemente precisa alimentar o gato via sonda em casa até a recuperação completa do apetite.
Prevenção
A prevenção passa pelo controle do peso do gato — a obesidade é o principal fator de risco. Mudanças de dieta devem ser graduais. Qualquer episódio de anorexia superior a 24 a 48 horas em gato, especialmente obeso ou sob estresse, exige avaliação veterinária imediata. Identificar e tratar precocemente as doenças subjacentes (pancreatite, DII, diabetes) reduz o risco de lipidose secundária.