O que é endocardite?
Endocardite é a inflamação da superfície interna do coração, mais especificamente das válvulas cardíacas. Na forma infecciosa bacteriana — a mais relevante em medicina veterinária —, microrganismos que entram na corrente sanguínea aderem às válvulas, formando massas chamadas vegetações. Essas vegetações interferem no fechamento correto das válvulas, causando regurgitação e comprometendo progressivamente a função cardíaca.
Em cães, as válvulas aórtica e mitral são as mais frequentemente acometidas. A endocardite é menos comum em gatos do que em cães. Cães de raças grandes e médias, machos e de meia-idade são os mais afetados, especialmente aqueles com histórico de doenças que predispõem à bacteremia.
Causas e tipos
A endocardite infecciosa resulta de bacteremia — presença de bactérias no sangue — que pode originar-se de focos como doença periodontal grave, infecção urinária, prostatite, piodermite ou procedimentos cirúrgicos sem cobertura antibiótica adequada. As bactérias mais isoladas incluem Staphylococcus, Streptococcus, Bartonella e Escherichia coli. Bactérias do gênero Bartonella têm associação especialmente forte com endocardite em cães.
- Endocardite bacteriana: causa mais comum — Staphylococcus, Streptococcus, Bartonella
- Endocardite não infecciosa: depósitos estéreis associados a neoplasias ou uremia
- Predisposição: doença periodontal, infecção prostática, corpo estranho implantado
- Válvulas mais acometidas: aórtica (cão) e mitral (cão e gato)
Sintomas
Os sinais clínicos podem ser sutis no início e confundidos com outras doenças sistêmicas. Febre intermitente, letargia, perda de peso, anorexia e relutância ao exercício são os achados mais comuns. Sopro cardíaco novo ou mudança em sopro pré-existente, detectado pelo veterinário durante auscultação, é um achado altamente sugestivo.
Sinais de insuficiência cardíaca — tosse, taquipneia, intolerância ao exercício e distensão abdominal — surgem à medida que a válvula comprometida perde a função. Embolização das vegetações pode causar sinais neurológicos agudos, claudicação ou sinais renais, dependendo do órgão atingido pelos êmbolos sépticos.
Diagnóstico
A ecocardiografia (ultrassom do coração) é o exame de escolha para visualizar as vegetações valvares, avaliar o grau de regurgitação e monitorar a função cardíaca. A hemocultura — coleta de sangue em diferentes momentos para identificar a bactéria causadora — é essencial para guiar a antibioticoterapia, embora os resultados demorem dias. Sorologia para Bartonella é indicada em casos suspeitos.
Hemograma revela leucocitose com neutrofilia, indicando processo inflamatório ativo. Bioquímica sérica avalia disfunção renal e hepática. Ecocardiografia transesofágica, disponível em centros especializados, oferece imagens de maior resolução para vegetações menores.
Tratamento
O tratamento baseia-se em antibioticoterapia prolongada — geralmente de 6 a 8 semanas — guiada pelo resultado da hemocultura e antibiograma. Enquanto os resultados da cultura não estão disponíveis, inicia-se antibioticoterapia empírica de amplo espectro com combinações que cubram Staphylococcus e organismos gram-negativos. Nos casos com Bartonella confirmada, a doxiciclina é parte do esquema.
O suporte cardiológico inclui medicamentos para insuficiência cardíaca quando necessário, como furosemida, enalapril e pimobendan. O foco infeccioso primário — dentes, próstata, pele — deve ser tratado ou removido para eliminar a fonte de bacteremia. O prognóstico é reservado, especialmente quando há comprometimento da válvula aórtica ou insuficiência cardíaca estabelecida.
Prevenção
O controle da doença periodontal por meio de escovação dentária regular e limpezas profissionais anuais é a medida preventiva mais importante, pois a boca é o principal foco de bacteremia em cães. A cobertura antibiótica profilática antes de procedimentos cirúrgicos em animais predispostos, o tratamento precoce de infecções urinárias e a manutenção da saúde geral reduzem significativamente o risco de endocardite.