O que é úlcera cutânea em animais?
Úlcera cutânea é uma solução de continuidade profunda da pele que não cicatriza espontaneamente, caracterizada pela perda de substância da epiderme e derme, com exposição de tecidos mais profundos. Distingue-se de abrasões e escoriações pela profundidade, cronicidade e ausência de tendência à cura sem intervenção terapêutica ativa.
A cronificação ocorre quando o processo inflamatório local, a infecção bacteriana secundária, a isquemia tecidual ou a doença de base impedem as fases normais da cicatrização (hemostasia, inflamação, proliferação e remodelação). Biofilme bacteriano nas bordas e no leito da úlcera é um dos principais obstáculos à cicatrização.
Causas e tipos
Úlceras de decúbito (escara) surgem em animais acamados — por fratura, doença neurológica ou pós-operatório prolongado — quando a pressão constante sobre proeminências ósseas (cotovelos, quadril, calcanhares) compromete a circulação local. Úlceras isquêmicas ocorrem por doenças vasculares ou vasculite. Úlceras infecciosas são causadas por bactérias (pioderma profundo), fungos ou leishmaniose.
- Úlcera de decúbito (escaras): animais acamados, proeminências ósseas
- Pioderma profundo ulcerado: infecção bacteriana profunda da pele
- Leishmaniose: ulcerações nos pinos do nariz, orelhas e patas
- Neoplásica: mastocitoma, carcinoma de células escamosas ulcerado
- Autoimune: pênfigo vulgaris, lúpus eritematoso sistêmico
- Lambedura compulsiva: granuloma de lambedura ulcerado (lick granuloma)
Sintomas
A úlcera cutânea se apresenta como uma lesão aberta de bordas irregulares, frequentemente com exsudato serossanguinolento ou purulento, tecido necrótico amarelado ou escuro no leito e odor característico de infecção bacteriana. As bordas podem ser elevadas, eritematosas e endurecidas nos processos crônicos ou neoplásicos.
O animal demonstra dor ao toque na região, podendo lamber persistentemente a lesão (o que perpetua a úlcera) ou proteger a área acometida. Sinais sistêmicos como febre, letargia e perda de peso indicam infecção generalizada ou doença sistêmica de base grave. Úlceras que envolvem articulações ou ossos causam claudicação intensa.
Diagnóstico
A citologia da úlcera — impressão ou swab do leito — permite identificar o tipo de células presentes (inflamatórias, neoplásicas) e os microrganismos predominantes. A biopsia das bordas é indispensável para distinguir úlceras inflamatórias de neoplásicas e orientar o tratamento. A cultura e antibiograma do exsudato identificam o agente bacteriano e guiam a antibioticoterapia.
A radiografia da área afetada avalia o envolvimento ósseo (osteomielite). Em casos suspeitos de doenças sistêmicas como leishmaniose, lúpus ou vasculite, exames séricos específicos (sorologia, FAN, ANCA) são necessários. A termografia ou Doppler vascular podem avaliar a perfusão tecidual em úlceras isquêmicas.
Tratamento
O manejo da úlcera inclui desbridamento — remoção de tecido necrótico e biofilme — seja mecânico (cirúrgico), autolítico (curativos especiais) ou enzimático. Curativos de hidrogel, alginato, prata nanocristalina ou espuma de poliuretano são selecionados conforme o tipo de exsudato e a fase da cicatrização. A antibioticoterapia sistêmica é necessária quando há infecção tissular profunda.
A causa subjacente deve ser tratada concomitantemente: reposicionamento e proteção de proeminências ósseas em animais acamados, imunossupressão em doenças autoimunes, quimioterapia ou cirurgia para neoplasias, tratamento específico para leishmaniose. O colar elizabetano previne lambedura da lesão. Em alguns casos, cirurgia reconstrutiva com retalho cutâneo ou enxerto de pele é necessária para fechamento definitivo.
Prevenção
Animais acamados devem ser reposicionados a cada 2 a 4 horas e mantidos sobre colchões ortopédicos com proteção das proeminências ósseas. Manter a pele limpa e seca, tratar prontamente qualquer ferida antes que evolua para ulceração e controlar doenças crônicas que predispõem a lesões cutâneas são medidas essenciais. Em raças predispostas ao granuloma de lambedura (Labradores, Golden Retrievers), investigar e tratar a causa comportamental precocemente evita a cronificação das lesões.