O que é esporotricose?
Esporotricose é uma micose subcutânea causada pelo complexo Sporothrix schenckii, um fungo dimórfico que vive como mofo no ambiente e como levedura no tecido animal. A infecção ocorre quando esporos do fungo penetram na pele por traumas — arranhões, mordidas, espinhos — iniciando a multiplicação local e podendo se disseminar via vasos linfáticos.
No Brasil, o gato doméstico se tornou o principal reservatório e vetor de transmissão para humanos. A epidemia de esporotricose felina no Rio de Janeiro, iniciada na década de 1990, tornou-se a maior epidemia urbana de esporotricose do mundo, com milhares de casos em humanos registrados por arranhões e mordidas de gatos infectados.
Causas e tipos
O Sporothrix brasiliensis é a espécie predominante no Brasil e está fortemente associada à transmissão felina, sendo mais virulenta do que as espécies clássicas. A infecção em gatos geralmente origina-se do contato com outros gatos doentes durante brigas, pois as lesões felinas contêm grande quantidade de fungos virulentos. Em cães e humanos, a infecção ainda pode ocorrer por contato ambiental com solo ou plantas.
- Forma cutânea localizada: lesão única no ponto de inoculação
- Forma linfocutânea: lesões ao longo do trajeto linfático
- Forma cutânea disseminada: múltiplas lesões em áreas distintas — mais comum em gatos
- Forma sistêmica: comprometimento de pulmões, ossos e sistema nervoso — rara, em imunossuprimidos
Sintomas
Em gatos, as lesões mais frequentes são nódulos e úlceras na cabeça, especialmente no focinho, orelhas e pálpebras, e na base da cauda. As lesões tendem a abrir e formar crostas com secreção serosa ou purulenta. Em felinos, a disseminação é mais rápida e as lesões mais extensas do que em outras espécies, possivelmente pela alta carga fúngica nas lesões e pelo comportamento de lamber e arranhar.
Em cães, a doença é menos comum e geralmente mais localizada. Em humanos infectados por gatos, as lesões surgem no local de arranhão ou mordida, geralmente nas mãos e antebraços, podendo seguir o trajeto linfático ascendente com novos nódulos aparecendo no caminho até os linfonodos regionais.
Diagnóstico
O diagnóstico definitivo é feito pelo isolamento do fungo em cultura de material coletado das lesões. Em gatos, a citologia das lesões por imprint ou PAAF frequentemente revela grande quantidade de leveduras ovais características, sendo um método rápido e de alta sensibilidade na espécie felina. O teste molecular (PCR) identifica a espécie e tem uso crescente.
Biópsia com histopatologia revela granulomas com células fúngicas, mas pode ser necessária coloração especial (PAS ou Grocott). O diagnóstico diferencial inclui tumor de pele, abscesso bacteriano e leishmaniose cutânea. Médicos veterinários devem usar equipamentos de proteção individual (luvas, máscara) ao manusear gatos suspeitos, dada a facilidade de transmissão.
Tratamento
O itraconazol é o antifúngico de escolha para gatos e cães, administrado diariamente por via oral. O tratamento é prolongado — mínimo de 60 dias após a resolução clínica das lesões, o que frequentemente significa 3 a 6 meses ou mais. A solução oral de itraconazol tem melhor biodisponibilidade do que as cápsulas. O iodeto de potássio, outrora usado em humanos, é contraindicado em gatos por causar toxicidade grave.
Gatos com esporotricose devem ser mantidos em isolamento de outros felinos durante todo o tratamento para evitar transmissão. A castração é altamente recomendada para reduzir o comportamento de briga. Monitoramento clínico e de função hepática é necessário durante o tratamento prolongado com itraconazol. A resolução das lesões deve ser confirmada antes de suspender a medicação.
Prevenção
A castração de gatos reduz o comportamento agressivo e as brigas, diminuindo significativamente o risco de infecção. Manter gatos dentro de casa em regiões endêmicas, evitar contato com gatos errantes doentes e adotar animais saudáveis de fontes confiáveis são medidas preventivas importantes. Os tutores e profissionais de saúde animal devem usar luvas e proteção ao manusear gatos com lesões suspeitas, pois a esporotricose é uma zoonose real e frequente no Brasil.