O que é erliquiose?
Erliquiose é uma ricketsiose causada por bactérias intracelulares obrigatórias do gênero Ehrlichia. No Brasil, a espécie mais relevante em cães é a Ehrlichia canis, transmitida exclusivamente pelo carrapato Rhipicephalus sanguineus. Após a picada, a bactéria se multiplica dentro de monócitos e macrófagos, espalhando-se pelo organismo e causando disfunção em múltiplos órgãos.
A doença é considerada endêmica em todo o território brasileiro e afeta principalmente cães, embora relatos em gatos sejam raros. Humanos podem ser infectados por outras espécies de Ehrlichia, mas a Ehrlichia canis não é considerada zoonose significativa no Brasil.
Causas e tipos
A transmissão ocorre exclusivamente pelo carrapato infectado que permanece aderido ao cão por horas. Quanto mais tempo o carrapato fica fixado, maior o risco de transmissão. A doença evolui em três fases: aguda (primeiras três semanas), subclínica (sem sintomas visíveis, mas com alterações laboratoriais) e crônica (meses a anos depois, com comprometimento grave da medula óssea).
- Fase aguda: febre, prostração, perda de peso, linfonodomegalia
- Fase subclínica: animal aparentemente bem, mas com plaquetopenia persistente
- Fase crônica: anemia aplásica, sangramentos espontâneos, pancitopenia grave
- Coinfecção com Babesia canis é frequente e agrava o quadro
Sintomas
Na fase aguda, os sinais mais comuns são febre alta, apatia, perda de apetite, perda de peso, secreção ocular e nasal, e linfonodos aumentados. Podem surgir petéquias (pequenas manchas de sangramento) na pele e mucosas, sangramento nasal (epistaxe) e urina escura. Alguns animais apresentam dificuldade respiratória por acúmulo de líquido no tórax.
Na fase crônica, a supressão da medula óssea leva à pancitopenia grave — queda simultânea de glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas. O animal fica extremamente debilitado, com risco de infecções oportunistas e hemorragias internas. Esta fase tem prognóstico reservado mesmo com tratamento intensivo.
Diagnóstico
O diagnóstico presuntivo baseia-se no hemograma, que revela plaquetopenia (redução de plaquetas) em mais de 80% dos casos, além de anemia e leucopenia variáveis. A confirmação pode ser feita por teste sorológico (ELISA ou imunofluorescência indireta) detectando anticorpos anti-Ehrlichia, ou por PCR, que identifica o DNA da bactéria no sangue com alta sensibilidade.
O exame de esfregaço sanguíneo pode revelar mórulas (aglomerados de bactérias) dentro de monócitos, mas tem baixa sensibilidade. A ultrassonografia abdominal frequentemente mostra esplenomegalia e hepatomegalia. O diagnóstico diferencial inclui babesiose, leishmaniose e outras causas de plaquetopenia.
Tratamento
A doxiciclina é o antibiótico de escolha, administrada por via oral por no mínimo 28 dias. A resposta ao tratamento na fase aguda é geralmente rápida: a febre cede em 24 a 48 horas. Casos graves com anemia intensa podem necessitar de transfusão de sangue. Corticosteroides em doses imunossupressoras são utilizados quando há destruição imunomediada de plaquetas associada.
O prognóstico é excelente na fase aguda e subclínica. Na fase crônica, especialmente com aplasia de medula óssea, o tratamento é prolongado, caro e o prognóstico é reservado. Suporte nutricional e monitoramento laboratorial seriado são essenciais durante toda a recuperação.
Prevenção
O controle eficaz de carrapatos é a principal medida preventiva. Coleiras antiparasitárias de longa duração, pipetas spot-on e comprimidos orais com ação acaricida aprovados pelo veterinário são as opções mais eficazes. Inspecionar o cão após passeios em áreas de mata, remover carrapatos imediatamente com pinça adequada e manter o ambiente doméstico livre de infestação completam a proteção.