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Cardiologia

Sopro no coração do cachorro: quando se preocupar

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Dra. Rafael Conte
11 de maio de 2026 · 6 min de leitura

Nem todo sopro cardíaco em cão é urgência — mas nenhum deve ser ignorado. Entenda os graus, as raças de risco, os exames necessários e quando o tratamento farmacológico deve começar.

O que é, de fato, um sopro cardíaco?

Um sopro cardíaco não é uma doença — é um sinal clínico. Tecnicamente, é um som anormal gerado pelo fluxo sanguíneo turbulento no interior do coração ou dos grandes vasos, detectado com estetoscópio durante a ausculta. Para o clínico geral, ouvir um sopro é o início de uma investigação, não um diagnóstico final.

Sopros podem ser funcionais (sem lesão estrutural cardíaca subjacente, como em filhotes ou animais anêmicos) ou patológicos (associados a lesões valvares, defeitos congênitos ou cardiomiopatias). A distinção exige exames complementares.

A escala de Levine: entendendo os graus

O sistema de classificação mais usado é a escala de Levine, de I a VI:

  • Grau I: muito suave, ouvido apenas em ambiente silencioso após ausculta prolongada. Frequentemente funcional.
  • Grau II: suave, mas consistentemente audível. Pode ser patológico, exige reavaliação periódica.
  • Grau III: moderado, facilmente audível. Investigação ecocardiográfica recomendada.
  • Grau IV: alto, sem frêmito palpável. Associado a lesão estrutural em todos os casos.
  • Grau V: alto, com frêmito palpável. Lesão significativa presente.
  • Grau VI: audível mesmo sem apoiar completamente o estetoscópio no tórax. Lesão grave.

Causas mais comuns por tipo de sopro

Doença Mixomatosa da Válvula Mitral (DMVM)

É a cardiopatia mais comum em cães, representando 75% a 80% de todos os casos de doença cardíaca adquirida canina. Caracteriza-se pela degeneração progressiva dos folhetos e cordoalhas tendíneas da válvula mitral, resultando em regurgitação do sangue do ventrículo esquerdo para o átrio esquerdo durante a sístole. O sopro sistólico é auscultado no foco mitral (quinto espaço intercostal esquerdo, linha costocondral).

Raças predispostas: Cavalier King Charles Spaniel (predisposição genética forte, prevalência próxima de 100% em animais acima de 10 anos), Dachshund, Poodle Toy e Miniatura, Chihuahua, Pinscher. O Cavalier KCS possui programa de reprodução controlada para reduzir a incidência.

Cardiomiopatia Dilatada (CMD)

Predominantemente em cães de grande e gigante porte: Dobermann (onde pode causar morte súbita sem sinais prévios), Boxer, Great Dane, Irish Wolfhound, São Bernardo. Caracteriza-se por dilatação das câmaras cardíacas e disfunção sistólica. O sopro associado é geralmente de regurgitação mitral ou tricúspide secundária à dilatação.

Defeitos congênitos

Persistência do Ducto Arterioso (PDA), estenose subaórtica, estenose pulmonar e comunicação interventricular são as malformações mais frequentes. Detectadas geralmente em filhotes durante a primeira consulta. Algumas são corrigíveis cirurgicamente ou por cateterismo intervencionista.

Protocolo diagnóstico recomendado

Ao detectar um sopro, a sequência diagnóstica inclui:

  1. Radiografia torácica: avalia tamanho cardíaco (índice vertebral cardíaco), presença de edema pulmonar (opacificação pericardíaca bilateral indica insuficiência cardíaca congestiva) e derrame pleural.
  2. Ecocardiograma com Doppler: exame padrão-ouro. Permite visualizar as câmaras, a função ventricular (fração de ejeção, fração de encurtamento), a morfologia valvar e quantificar a regurgitação.
  3. Eletrocardiograma: identifica arritmias que podem acompanhar as cardiopatias, como fibrilação atrial (frequente na CMD) e complexos ventriculares prematuros.
  4. Pressão arterial: hipertensão sistêmica agrava cardiopatias e pode ser causa independente de sopro.
  5. Biomarcadores cardíacos (NT-proBNP, troponina I): úteis para diagnóstico precoce de lesão miocárdica e monitoramento de progressão.

Estadiamento ACVIM e decisão de tratamento

A diretriz de 2019 do Colégio Americano de Medicina Interna Veterinária (ACVIM) classifica a DMVM em quatro estágios:

  • Estágio A: raça de risco, sem sopro. Monitoramento periódico.
  • Estágio B1: sopro presente, sem remodelamento cardíaco. Sem medicação.
  • Estágio B2: sopro com remodelamento (dilatação do átrio esquerdo e/ou ventrículo). Início de pimobendan (vasodilatador e inotrópico positivo) está indicado — estudos EPIC e DELAY demonstraram que atrasa o início da insuficiência cardíaca congestiva em média 15 meses.
  • Estágio C: sinais clínicos de insuficiência congestiva (tosse, dispneia, intolerância ao exercício). Terapia médica completa: pimobendan, furosemida, inibidor de ECA (enalapril ou benazepril), espironolactona.
  • Estágio D: refratário ao tratamento convencional. Manejo intensivo.

Monitoramento em casa

Tutores de cães com cardiopatia diagnosticada devem aprender a medir a frequência respiratória em repouso (FRR) em casa. FRR noturna superior a 30 movimentos por minuto é sinal de alerta de edema pulmonar iminente — entre em contato com o veterinário imediatamente. Aplicativos como "My Murmur" ajudam a registrar medições ao longo do tempo.

Perguntas frequentes

Meu cachorro tem sopro grau II e o veterinário disse para monitorar. Devo buscar uma segunda opinião?

Monitoramento sem medicação é a conduta correta para sopros de grau I e II sem remodelamento cardíaco — chamado estágio B1 pela diretriz ACVIM 2019. Nesse estágio, não há evidência de benefício da medicação. Buscar uma segunda opinião de um cardiologista veterinário é sempre legítimo, especialmente para raças predispostas como Cavalier KCS e Dachshund. O cardiologista pode solicitar ecocardiograma para confirmar o estadiamento e definir se o animal entrou no estágio B2, onde o pimobendan está indicado para retardar a progressão.

Minha cachorra Cavalier King Charles Spaniel tem 5 anos e ainda não tem sopro. Devo me preocupar preventivamente?

O Cavalier KCS tem predisposição genética tão forte para DMVM que virtualmente todos os indivíduos desenvolvem a doença — a prevalência chega a 100% aos 10 anos. A recomendação do programa de criação responsável (MVD Breeding Protocol) inclui auscultação cardíaca anual a partir dos 2 anos e ecocardiograma antes da reprodução. Para um animal de 5 anos sem sopro, auscultação semestral e, se possível, ecocardiograma de baseline são condutas razoáveis para estabelecer parâmetros comparativos.

O sopro pode desaparecer com o tempo ou sempre piora?

Depende da causa. Sopros funcionais em filhotes (comuns entre 6 e 16 semanas, frequentemente chamados de sopros inocentes) tendem a desaparecer conforme o sistema cardiovascular amadurece. Já sopros patológicos associados a degeneração valvar ou cardiomiopatia são progressivos — a intensidade do sopro correlaciona-se geralmente com a progressão da doença. A velocidade de progressão varia muito entre indivíduos: alguns animais permanecem estáveis por anos; outros progridem rapidamente para insuficiência congestiva. O ecocardiograma periódico é o melhor indicador de progressão.

Cão com sopro cardíaco pode se exercitar normalmente?

No estágio B1 (sopro sem remodelamento), a restrição de exercício não está indicada — o animal pode ter vida normal. No estágio B2 e C, a tolerância ao exercício é avaliada clinicamente: intolerância (cansaço fácil, dispneia após atividade leve) é sinal de progressão. Exercícios muito intensos (corridas longas, agility competitivo) são geralmente desaconselhados após o diagnóstico de cardiopatia estrutural significativa. Caminhadas tranquilas e atividade moderada costumam ser permitidas e benéficas para manutenção do condicionamento muscular.

Posso tratar sopro cardíaco com suplementos naturais como espirulina, CoQ10 ou ômega-3?

Suplementos naturais não substituem o tratamento farmacológico convencional nas cardiopatias veterinárias com evidência científica estabelecida (pimobendan, furosemida, inibidores de ECA). O ômega-3 (EPA/DHA) tem evidência de benefício em cardiomiopatias — melhora cachexia cardíaca e tem efeito anti-inflamatório — e pode ser utilizado como adjuvante com dosagem veterinária. CoQ10 tem evidência muito limitada em medicina veterinária. Nunca substitua medicamentos prescritos por suplementos sem orientação do cardiologista veterinário responsável pelo caso.

O que significa quando o veterinário fala em 'fração de ejeção' no ecocardiograma?

A fração de ejeção (FE) é a porcentagem do volume de sangue que o ventrículo esquerdo ejeta a cada batimento. Valores normais em cães ficam entre 55% e 75%. Uma FE abaixo de 50% indica disfunção sistólica — o coração não está bombeando eficientemente. Na DMVM, a FE pode se manter normal por anos mesmo com regurgitação significativa (o ventrículo compensa); quando começa a cair, é sinal de descompensação miocárdica. Na cardiomiopatia dilatada do Dobermann, a FE pode estar muito reduzida (20-30%) antes do aparecimento de sinais clínicos — daí a importância do screening ecocardiográfico anual nessa raça.